Observadores da rua
— Olha aquele ali, seu António!
Um Carocha dos anos 60, ainda com a pintura de origem!
— disse o rapaz, apontando para o carro que passava devagar pela rua.
O velho sentou-se mais confortavelmente no banco de madeira da praça, puxou a boina ligeiramente para a frente e sorriu.
Para a maioria das pessoas que cruzavam aquela avenida, o trânsito era apenas ruído, fumo e apressa.
Para ele, era um museu em movimento, um desfile de memórias sobre rodas.
António conhecia o trabalhar dos motores antes mesmo de os ver dobrar a esquina.
Distinguia o rosnar grave de um antigo V8 do trabalhar ritmado e metálico de um motor a dois tempos.
Cada automóvel que passava contava-lhe uma história: o Renault 4L lembrava-lhe a primeira viagem à praia com a esposa; o Mercedes preto trazia-lhe à memória o táxi que o levara ao hospital no dia em que a filha nasceu; e os desportivos modernos, baixos e silenciosos, faziam-no admirar-se com o quanto o mundo tinha mudado.
Ali, no seu posto de observação diário, o tempo não passava a correr como nos motores dos carros novos.
Acompanhava o ritmo cadenciado dos semáforos, apreciando as linhas, as formas e a nostalgia de tudo o que ainda rolava pelo asfalto.

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